26 Mai O Jardim do mundo, ao cuidado da Humanidade
(Para celebrar os 10 anos da Laudato Si’ do Papa Francisco)
Isidro Lamelas, ofm
Estamos habituados a olhar para o jardim como um “espaço verde” ou “lugar de lazer”, tratado-o como um “Passa-Tempo”; mas o jardim é um assunto muito mais sério. O filósofo R. ASSUNTO, pôde escrever uma Ontologia e teologia do jardim (Ontologia e teleologia del giardino, Milano, 1988) que vale a pena ler, de preferência num recanto de um jardim.
Efetivamente, o jardim não é apenas uma metáfora da pátria perdida da qual sentimos uma profunda nostalgia, mas representa também a possibilidade de reconstruirmos o espaço sonhado e até de anteciparmos, já nesta vida, a realização de uma promessa de felicidade.
Pensar o jardim significa, por isso, repensar a própria experiência e lugar do ser humano neste mundo, neste “jardim” plantado por Deus e confiado ao cuidado da humanidade (Laudato Si’ 67).
Olhando para a história da humanidade, esta confunde-se com a história do jardim. Este está, de facto, presente em toda a história dos povos. É por isso considerado o terreno da legibilidade do mundo, na medida em que o jardim narra, afinal, a história universal do género humano, desde o princípio.
De acordo com o mito iraniano da criação, a paisagem sagrada das origens assemelhava-se a um jardim cheio de luzeiros e irrigado por torrentes de água.
Nela mitologia greca o jardim aparece muitas vezes como “lugar” antes de haver tempo e espaço (in illo tempore) em que os humanos vivem beatamente felizes em estreita relação com os deuses. No mito grego do Jardim das Hespérides, este, situado nas margens do rio Oceano (no extremo ocidente) e guardado por um dragão, era a morada das ninfas ou deusas que passeavam pelos céus, encarregando-se de iluminar o mundo com a luz da tarde. Os antigos conhecem ainda outros jardins, como o de Adônis que inspirou tantos poetas. Os Campos Elíseos clássicos mereceram múltiplas versões no mundo antigo, como expressão do paraíso ou “céu” dos pagãos.
Em boa parte das culturas antigas, o jardim é a imagem habitual do paraíso terreste ou celeste. Não faltam paralelos e analogias entre o jardim bíblico e os de outras religiões e civilizações, particularmente do Próximo Oriente, como nos mostrou J. Delumeau (Une histoire du Paradis. Le Jardin des délices, Paris 1992).
Podemos adiantar que a grande diferença entre as tradições extra-bíblicas e a visão bíblico-cristã é que esta, ao contrário daquelas, que colocam o paraíso num passado primordial (in illo tempore), situam-no sobretudo no futuro: no fim dos tempos (Ez 36,35; Is 51,3; Apocalipse). Entretanto, no presente desta vida terrena, esse jardim permanece “escondido” ou num lugar inacessível (Ez 28 13 ss,).
O Jardim, figura do paraíso
Jardim, na língua bíblica diz-se gan, termo que designa um espaço cercado (hortus conclusus); o termo foi traduzido na bíblia por parádeisos, “paraíso” nas línguas modernas. Acrescentamos que Parádeisos é uma palavra de origem iraniana (pardes), termo persiano antigo que passou para o hebraico e do hebraico para o grego e do grego para as nossas línguas modernas, sem nunca ter sido traduzida na sua literalidade, sendo um decalque linguístico. Já na língua persiana e iraniana designa um lugar de paz, aprazível, com abundante vegetação, flores e sombras e, necessariamente, atravessado por uma corrente de água. Desde o século III a.C. que a palavra parádeisos é usada na aceção de “parque”, “jardim” ou “horto de fruta”. No âmbito do judaísmo helenístico, nomeadamente na versão grega dos Setenta, a palavra já é usada para designar o “jardim de Deus”. A desinência “de Deus” ocorre para distinguir dos outros “parques” profanos (cf. Gn 13,10; Ez 28,13; 31,8).
Facto é que em praticamente em todas as tradições antigas o jardim está carregado de uma simbólica riquíssima. Fílon de Alexandria, um dos autores judaicos que muito influenciou a cultura cristã, depois de definir o jardim, como “um lugar repleto de plantas de todas as espécies” (densus locus est omnimodis arboribus confertus)”, sublinha o significado simbólico do Jardim do Éden, como algo que tem a ver com a “sabedoria de Deus e do Homem (symbolice tamen est sapientia, intelligentia divina humanaque)”, uma vez que, contemplando a beleza da criação, o ser humano louva a sabedoria do Pai de todas as coisas naturais, que “plantou” no Homem a inteligência e sabedoria (Quaestiones in Genesim, I,6).
No princípio era o jardim e assim será no fim
In principium era o jardim. A Bíblia começa e acaba num “jardim” e toda a história sagrada, do Génesis ao Apocalipse, não é senão uma longa viagem pelo jardim, habitado de imagens, símbolos, palavras, pessoas, animais e plantas. Bastaria lembrar o Apólogo de Joatão narrado no Livro dos Juízes, em que o Homem é convidado a aprender as lições da natureza:
«Certa vez as árvores reuniram-se para escolher um rei. Disseram para a oliveira: “Reina sobre nós.” A oliveira respondeu: “Para reinar sobre vós teria de deixar de produzir azeite, o qual é usado para honrar deuses e homens.” Então as árvores disseram à figueira: “Sê tu o nosso rei!” Mas a figueira replicou: “Para reinar sobre vós não poderia produzir mais o meu doce fruto.” Em seguida as árvores disseram à videira: “Tu é que vais ser o nosso rei.” Mas a videira respondeu: “Para reinar sobre vós deixaria de poder dar o meu vinho, que faz os deuses e os homens felizes.” Então as árvores disseram ao espinheiro: “Tu vais ser o nosso rei.” O espinheiro respondeu: “Se querem mesmo que eu seja vosso rei, venham todos para debaixo da minha sombra. Se não quiserem, sairá fogo dos meus ramos espinhosos e consumirá até os cedros do Líbano”» (Jz 9,7-15).
Esta história protagonizada pelas criaturas irracionais mostra-nos o que sucede quando, no governo e cuidado da “casa/coisa comum”, os bons fogem ao dever e responsabilidade: acabamos a escolher os maus (espinheiro). Como dizia Martin Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”.
O texto do Génesis reza que “O Senhor Deus plantou um jardim em Éden, no oriente, e aí colocou o homem que modelara” (Gn 2,8). E, pouco depois, acrescenta que “o Senhor Deus tomou o homem e colocou-o no jardim do Éden para que o cultivasse e cuidasse” (Gn 2,15b). Segundo S. Agostinho, o tempo começou aí, nesse lugar em que se iniciou a história da humanidade com Deus.
Tudo começa, podemos dizer, num jardim em que o Homem é “colocado” com a dupla missão de “cultivar e cuidar” (Gn 2,15). “Ser posto” por Deus significa, neste caso, assumir posição e uma missão. O ser humano pertence e é parte dos seres criados. Por outro lado, ele “ocupa” no conjunto da criação um lugar e papel de maior dignidade, isto é, de mais responsabilidade.
Como ensina a Laudato Si, não podemos “pretender ocupar o lugar de Deus, recusando a nossa condição de criaturas limitadas” (LS 66). “Não somos Deus. A terra existe e foi-nos dada”, não para “dominar” sem regras, mas para “cultivar a cuidar o jardim do mundo” (LS 67).
O Papa Francisco ao chamar “jardim do mundo” a casa comum, repropõe-nos uma hermenêutica corrigida da narrativa da criação tantas vezes mal interpretada. Na verdade, a própria imagem do “jardim” remete sobretudo para uma relação não utilitária nem consumista, mas contemplativa e de responsabilidade perante o jardim que é de Deus (Ele o plantou) (cf. LS 68).
Efetivamente, o que distingue um “jardim” é o facto de ser um espaço protegido e cuidado, onde “nada falta” (G. Clément, Breve storia del giardino, 21), resultante, portanto, da combinação entre a natureza e o homem, entre as criaturas e a cultura; do encontro da natureza com a intervenção e cuidado humano resulta o jardim que Deus plantou para confiar ao cuidado humano (LS 124). Dedicação, tempo e paciência são os ingredientes que se requerem: paciência do homem e da natureza; tempo do homem e das criaturas; dedicação do jardineiro que cultiva… Por isso, o jardim bíblico está associado à Aliança, entre Deus e a humanidade, mas também entre o Homem e o Cosmo.
Segundo a narrativa bíblica, o primeiro jardim foi plantado por Deus. Os Padres da Igreja, como Orígenes e Cipriano, viram neste detalhe um “sentido mais profundo”: O Jardim é o próprio mundo ou, talvez também a Igreja (enquanto comunidade de todos ). O ser humano foi posto neste jardim do mundo para “trabalhar e cuidar, num trabalho que dignifica, pois todo o trabalho consiste em cuidar”, lembra S. Agostinho (Sobre o Génesis, contra os Maniqueus, 2,11). Simeão, o Novo Teólogo entende que “no princípio, na pessoa de Adão, a humanidade recebeu no jardim do paraíso o mandato de trabalhar e cuidar dele e, por isso, o trabalho é em nós uma inclinação natural e um movimento rumo ao bem” (Catequese, X,3).
Narra o Génesis que um rio saía do Éden para irrigar o jardim que, depois, se dividia formando quatro cursos, correspondentes aos quatro pontos cardeais. Toda a água do mundo provém, assim, da mesma fonte do jardim das delícias: quer o autor sagrado dizer que o Criador é essa Fonte única de toda a família humana, que criou todos os povos e seres humanos para usufruírem, com igualdade e justiça, dos bens e das “fontes” que a terra oferece; para viveram em paz e harmonia, sem destruírem os recursos naturais que devem chegar a toda a parte do globo.
O Jardim do Éden adquire assim rapidamente, na Bíblia, o valor de um espaço sagrado no qual o projeto divino foi ordenado para que o bem do Homem. Como tal, deve ser olhado e respeitado por todos.
No Antigo Testamento não faltam outras referências ao jardim. Tudo indica que Deus também gosta do jardim. A expressão “jardim de Deus” é frequente no texto sagrado (Ez 28,13, 31,8; 31,9; Gn 13,10; Is,51,3).
Segundo o Deuteronómio 8,7-11, Deus promete ao seu povo a terra prometida, descrita como um jardim “uma terra maravilhosa, onde há rios, fontes e nascentes que brotam nas planícies e nas montanhas; uma terra de trigo e cevada, de vinha, de figueiras e de romãzeiras, terra de muito azeite e de mel”. Ao mesmo tempo, Deus adverte o seu povo para “ter cuidado e não se esquecer do Senhor, seu Deus, e seus mandamentos”, para que não suceda que “depois de terem comido até ficarem satisfeitos, de terem construído casas e as terem habitado” e terem “enriquecido com gados e rebanhos, prata e ouro… o seu coração se envaideça e se esqueças do Senhor Deus”.
O Jardim do Éden é evocado pelo profeta Ezequiel, que o descreve segundo a conceção mesopotâmica do jardim sagrado, concebido como uma morada de luz, pejado de pedras preciosas (Ez 28,13; 31,8).
O jardim do Éden serve de cenário de fundo ao Cântico dos Cânticos, o livro bíblico que canta liricamente o amor fiel e duradouro que resiste à morte. O encontro entre os dois amantes que, superando todos os obstáculos, se procuram e se encontram para celebrar amor eterno, dá-se no jardim, cheio de sons, flores, cores e aromas que cantam a beleza da vida e do amor. “Onde foi o teu amado, ó bela entre as mulheres? O meu amado tinha descido ao seu jardim” (Ct 6, 1-2). O tema do “jardim cerrado” (Hortus conclusus) de Ct 4, 12-13 será tantíssimas vezes citado e reinterpretado para se referir, por fim, à própria Virgem Maria, como Jardim de graças fecundo e virgem. Deste jardim, a piedade cristã colherá, por sua vez, rosas e rosários.
Aquele jardim do Cântico dos Cânticos repete-se no encontro de Cristo com Maria Madalena, na madrugada da ressurreição. De facto, S. João, no seu Evangelho, enquadra o mistério pascal de Jesus aludindo ao jardim do Génesis e do Cântico dos Cânticos. A prisão de Jesus tem lugar num jardim e num jardim será também sepultado (cf. Jo 18,1; 19,41). Nesse jardim, Maria de Magdala, no dia seguinte ao sábado, enfrentando a escuridão e o escárnio, como o amante do Cântico dos Cânticos, procura o seu amado até o encontrar. Na Páscoa de Jesus, realiza-se assim o Éden desejado, porque a partir deste acontecimento começa a nova criação e a nova humanidade do ressuscitado. Cristo é o restaurador do paraíso “perdido”, reencontrado na pessoa do Ressuscitado (Lc 23, 43; Mc 1,13; Ap 2,7).
Luzes e sombras do jardim
Mas o jardim não é apenas um lugar de “delícias”. Deus plantou o “Jardim” deste mundo para o Homem desfrutar e cuidar: o mundo foi criado para ser a felicidade (delícias) de Deus e do Homem. Adão e Eva, representantes de toda a família humana, viviam felizes em perfeita harmonia com a natureza: a terra produzia os frutos necessários, os animais eram submissos ao Homem, o sofrimento e a morte não faziam parte dos cuidados humanos; as leis da natureza eram respeitadas, segundo o Criador. Mas a história do paraíso é também a história de “paraísos perdidos”. O mesmo Livro do Génesis acrescente que, depois do pecado de Adão e Eva, “o Senhor Deus expulsou o Homem do jardim do Éden, para cultivar o solo de onde fora tirado” (Gn 3,23). A tentação de querer “ser como Deus” arruína o primeiro paraíso. Os homens e as mulheres – ensinam os profetas bíblicos-, “são como as árvores mais fortes e as flores mais graciosas. Mas, infelizmente, podem orgulhar-se tanto da sua beleza que desprezam o seu criador. Lot, sobrinho de Abraão, escolhera morar no vale de Sodoma, que era “como um jardim de Deus” (Gn 1310). Mas os habitantes desta e de outras cidades há muito tinham rompido com o pacto proposto por Deus a toda a humanidade. O rei de Tiro orgulhava-se da riqueza e do poder político da sua cidade. O soberano da Babilónia acreditava-se invulnerável atrás das suas muralhas, confortavelmente instalado à sombra dos seus luxuriantes jardins suspensos. Jezabel, a esposa estrangeira do rei Acab, escrava dos deuses mesopotâmicos, julgava-se no direito de usurpar a posição do marido pusilânime e, julgando-se omnipotente, combatia os profetas do Deus de Israel. Uma história que parece repetir-se em nossos dias…
O jardim que «no princípio” era um lugar de felicidade, passou, por culpa dos humanos, a ser um lugar ambíguo: se no Cântico dos Cânticos o jardim é lugar de encontro, de amor e felicidade; o “jardim das oliveiras” ou Getsémani foi para Jesus lugar de traição e antecâmara da paixão. O próprio facto de, desde o princípio segundo Gn 2,8, o jardim se situar a oriente, isto é, num sítio distante, talvez inalcançável, aponta já para essa ambivalência. Depois da “queda”; no caso de Adão e Eva, “depois de terem comido do fruto proibido”, este lugar de sonho fica mesmo inacessível. Vergonha e medo habitam agora a vida humana que se vê obrigada a, “com o suor do rosto” trabalhar para comer. As árvores e as folhas tornam-se esconderijos de uma humanidade “expulsa” e em fuga de Deus; adensa-se agora a sombra da morte.
No Novo Testamento esta ambiguidade do jardim continua: em Jo 18,1 Jesus retira-se, com seus discípulos, para um jardim, onde há uma torrente. Neste jardim Judas, “que conhecia bem este lugar”, consuma a traição do Mestre, com um beijo que não é de amor.
Quando e onde Jesus foi crucificado, havia ali também um jardim (Jo 19,41), onde existia um sepulcro novo. Neste jardim em que a vida era devorada pela morte, a morte será vencida pela vida na madrugada da Páscoa, na qual o jardim da morte se tornou, de novo, o jardim da vida nova e eterna.
José de Arimateia sepulta o corpo de Jesus num túmulo situado num jardim, onde o Ressuscitado aparece a Maria Madalena que O confunde com um jardineiro (hortolanus; Jo 20 15-16). De novo, no jardim, dá-se o encontro da esposa com o esposo, como no Cântico dos Cânticos. O Evangelista quer-nos, assim, ensinar que Cristo, o novo Adão, vem restaurar o jardim plantado por Deus, no qual Homem se reencontra sem medo nem vergonha.
No fim, será o paraíso
Em suma, o jardim é, na Bíblia, o contrário do deserto: “povoado como uma cidade, fremente como um ninho, obscuro como uma catedral, perfumado como um ramo de flores, vivo como uma multidão” (Victor Hugo). Por isso ele é muitas vezes associado à profecia.
Os profetas já tinham anunciado que os próprios desertos desta terra se transformariam em “jardim/paraíso”, ou num novo Éden (Is 51,3; 11,6-8; 61,11; Jr 29,5; Am 9,14). A profecia realizou-se, segundo o Novo Testamento, em Jesus Cristo que em si reconcilia e recapitula todas as criaturas (Mc 1,12-13; Cl 1,15-20). Ele é a Árvore da vida plantada no centro do mundo, de onde jorram rios de água viva que irriga todo o cosmo (assim é representado nas absides das antigas basílicas cristãs).
Tal facto é evidenciado nas palavras que o Crucificado dirige ao ladrão que estava ao seu lado: “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 42): desta forma, o novo Adão reabre a todos Homens, não obstante o pecado, as portas do jardim da vida. De facto, essas palavras de Jesus parecem significar: hoje estarás comigo, (vírgula) no paraíso; o que indica que o paraíso é o próprio Cristo. Ele é o Cordeiro que, segundo o livro do Apocalipse, preside no coração da Cidade Santa, que é também um jardim, que é aliás o verdadeiro jardim colocado no futuro. Ele é a “árvore boa” de que fala o Apólogo de Joatão (Jz 9,7-15) que não fugiu à missão de reinar (servir e cuidar) o jardim do Mundo.
É significativo que a história da humanidade, segundo a Bíblia, comece e culmine num jardim. De facto, o livro do Apocalipse apresenta a o futuro escatológico da humanidade no cenário de uma cidade jardim: cercada por muralhas e atravessada por um rio, com a árvore da vida no centro; esta árvore dá fruto 12 vezes ao ano, isto é, todos os meses, expressão da bem-aventurança plena e continuada (Ap 2,7; 22,1-2). Desta forma, a revelação bíblica quer-nos ensinar que o “jardim das delícias” e a “idade de ouro” estão, afinal, no futuro e não no passado.